A era da loucura – Michael Foley

“ Marx também foi demasiado simplista ao presumir que o condicionamento sempre nasce da direita. Em épocas recentes, ele tem vindo com a mesma frequência da esquerda. Os anos 1970 foram uma década de liberação, de revolta contra a injustiça e de exigência de reconhecimento de direitos. Mas, com o tempo, a demanda por reconhecimentos específicos foi se transformando numa exigência generalizada de atenção, e o ódio a determinadas injustiças, num sentimento generalizado do descontentamento e ressentimento. O resultado é uma cultura de reivindicação de direitos, de busca de atenção e reclamações. A demanda por atenção é cada vez mais forte e variada, consequência do vazio interior que requer uma identidade conferida de fora: sou visto, logo existo.”

“ A valorização do potencial é uma forma de cobiça que acredita que sempre existe algo melhor logo ali. Mas o charme do potencial está em valorizar o futuro as custas de desvalorizar o presente. Seja o que for que esteja acontecendo, hoje já é ontém, e a única verdadeira excitação é a Próxima Novidade – o próximo amor, emprego, projeto, férias, destino ou refeição. Por isso, a solução mais atraente para os problemas é a fuga. Se há dificuldtades no relacionamento ou no trabalho, a tentação é mudar. Isso exclui qualquer possibilidade de desfrutar a sensação de enfrentar e superar problemas e destrói a capacidade de transformar adversidades em vantagens, aconteça o que acontecer.”

“Muitas dessas tendências contemporâneas estão inter-relacionadas, A tendência à infantilidade é com certeza uma reação à era da liberação. É um erro comum presumir que a liberação é por si só suficiente para a realização, que tudo vai ficar bem se conseguirmos escapar de um emprego que corrói a alma, de um relacionamento opressivo, de uma cidade sombria. Mas acontece que liberdade não gera automaticamente realização. Pelo contrário, liberdade requer trabalho duro e incessante. As velhas tradições podem ser opresivas,  mas viver sem elas é incerto, complicado, confuso e estressante. Ter que tomar uma decisão a partir de análise de premissas é exaustivo. O potencial de infinitas posibilidades se transforma na perpelexidade diante de infinitas opções. E daí o retrocesso: um profundo desejo de agir por impulso e não por deliberação, de seguir a emoção ao invés da razão, de preferir o que é certo, simples, fácil e passivo. A árdua responsabilidade de ser adulto gera uma profunda nostalgia do prazer de desfrutar um amor incondicional, de comer, beber, usar fraldas e dormir ouvindo uma canção de ninar.”

“ O entusiasmo sente-se mais à vontade na poesia e no jazz – e não é coincidência que ambos tenham o ritmo como base. Mas o caráter espontâneo, direto e breve dos bons poemas e dos solos de jazz os faz parecer fáceis. Parece que qualquer pessoa poderia ter feito aquilo. Assim, todo mundo tenta, e por isso 99 por cento da poesia e do jazz são um lixo deprimente. Porque a excelência requer tempo e energia.”

“Os casamentos fracassam porque o desprezo é um ácido tão corrosivo que dissolve qualquer laço. Mas um parceiro independente, por mais que seja difícil conviver com ele tem uma possibilidade muito menos de inspirar desprezo. Portanto, um casal terá maiores chances de crescer junto se cada um estimular o outro a crescer independente – e o paradoxo é que, no amor maduro, o distanciamento favorece o apego. Como disse Rilke: “ Uma pessoa apaixonada tem que tentar se comportar como se tivesse que realizar uma tarefa importante: tem que passar muito tempo só, refletindo e pensando, recuperando seu auto-controle; tem que trabalhar; tem que se tornar algo.” Trata-se de um conselho radical: para ter sucesso como amante, passe mais tempo só.”

“ A depressão é muitas vezes o destino da personalidade moderna – ambiciosa – faminta por atenção e ressentida, sempre convencida de merecer mais, sempre perseguida pela possibilidade de estar perdendo algo melhor, sempre sofrendo pela falta de reconhecimento e sempre insatisfeita. É preciso reencontrar a coragem e a humildade de Sísifo, que não exige recompensa, mas sabe transformar qualquer atividade em sua própria recompensa. Sísifo é feliz com o absurdo e a insignificância de seu ato de empurrar constantemente uma rocha montanha acima.”

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