Espiritualidade para céticos – Robert C. Salomon – parte 1

“No mínimo, a espiritualidade é a percepção sutil e não facilmente especificável que envolve praticamente toda e qualquer coisa que transcenda ao nosso mesquinho interesse pessoal. Há, portanto, espiritualidade na natureza, na arte, nos laços de amor e companheirismo que mantém uma comunidade unida, na reverência à vida (e não só a vida humana) que é a chave para grande número de filososfias, bem como religiões. Isso não significa que espiritualidade é uma forma de abnegação ou negação do ego. A espiritualidade, quero demonstrar , é uma forma expandida do self, o que, enfaticamente, não significa dizer que é uma forma expandida de egoísmo. Ela é, antes como muitos budistas afirmam a muito e Hegel afirmou mais recentemente, a apaixonada sensação de autoconsciência em que a própria distinção entre abnegação e egoísmo desaparece.”

“Nas palavras famosas de Kant: “A ciência é a organização do conhecimento, mas a sabedoria é a organização da vida.”

“O que Kant não percebeu, pelo menos em sua filosofia, foi o quanto a religião é antes de mais nada um fenômeno social, não uma questão de crença.”

“Uma analogia sobre a definição de espiritualidade seria o JAZZ. O jazz é sintético e social, reunindo muitas vozes e pessoas. É eclético, tomando emprestado elementos de tudo e de toda parte, de cantigas infantis e canções folclóricas à música aborígene australiana. É pluralista. Não há forma correta de jazz. É improvisador, espontâneo, todas aquelas vozes respondendo umas às outras (e à audiência) tomando por base o que veio antes mas nunca preso a ele. É complexo, viceja no contraponto e é ricamente aleatório e imprevisível.”

“Por fim, a filosofia se torna espiritualidade quando aprende como ouvir (uma lição difícil para aqueles de nós que ganhamos a vida e reputações com palestras e monólogos). É formular e tentar responder por nós mesmos as eternas questões filosóficas, sobre o sentido da vida, a inevitabilidade da morte e o lugar de todos e de cada um de nós num mundo cada vez mais (talvez tragicamente) humano. É também aproximar-se da humanidade com o sentimento humilde de que afinal talvez não sejamos tão brilhantes assim e que as respostas que buscamos talvez estejam mais bem concebidas em algum outro lugar e de uma maneira muito diferente. As antíteses dessa visão de filosofia são tanto o paradoxo inteligente quanto a solução de enigmas da filosofia analítica contemporânea e do obscurantismo muitas vezes cínico de grande parte da filosofia “continental” contemporânea. Filosofia, como Platão viu claramente, é uma prática espiritual.”

” Com demasiada frequência, confundimos o entusiasmo da novidade com amor, pondo assim em perigo a própria idéia da duração do amor ou adotando desesperadamente a meta implausível de mantê-lo novo.”

“Diz-se assim que o verdadeiro conhecimento começa com o reconhecimento do quanto somos realmente ignorantes, o que não é uma desculpa para a resignação mas antes um estímulo para o entusiasmo e o envolvimento com o mundo.”

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