Espiritualidade para céticos – Robert C. Salomon – parte 1

Outubro 1, 2007

“No mínimo, a espiritualidade é a percepção sutil e não facilmente especificável que envolve praticamente toda e qualquer coisa que transcenda ao nosso mesquinho interesse pessoal. Há, portanto, espiritualidade na natureza, na arte, nos laços de amor e companheirismo que mantém uma comunidade unida, na reverência à vida (e não só a vida humana) que é a chave para grande número de filososfias, bem como religiões. Isso não significa que espiritualidade é uma forma de abnegação ou negação do ego. A espiritualidade, quero demonstrar , é uma forma expandida do self, o que, enfaticamente, não significa dizer que é uma forma expandida de egoísmo. Ela é, antes como muitos budistas afirmam a muito e Hegel afirmou mais recentemente, a apaixonada sensação de autoconsciência em que a própria distinção entre abnegação e egoísmo desaparece.”

“Nas palavras famosas de Kant: “A ciência é a organização do conhecimento, mas a sabedoria é a organização da vida.”

“O que Kant não percebeu, pelo menos em sua filosofia, foi o quanto a religião é antes de mais nada um fenômeno social, não uma questão de crença.”

“Uma analogia sobre a definição de espiritualidade seria o JAZZ. O jazz é sintético e social, reunindo muitas vozes e pessoas. É eclético, tomando emprestado elementos de tudo e de toda parte, de cantigas infantis e canções folclóricas à música aborígene australiana. É pluralista. Não há forma correta de jazz. É improvisador, espontâneo, todas aquelas vozes respondendo umas às outras (e à audiência) tomando por base o que veio antes mas nunca preso a ele. É complexo, viceja no contraponto e é ricamente aleatório e imprevisível.”

“Por fim, a filosofia se torna espiritualidade quando aprende como ouvir (uma lição difícil para aqueles de nós que ganhamos a vida e reputações com palestras e monólogos). É formular e tentar responder por nós mesmos as eternas questões filosóficas, sobre o sentido da vida, a inevitabilidade da morte e o lugar de todos e de cada um de nós num mundo cada vez mais (talvez tragicamente) humano. É também aproximar-se da humanidade com o sentimento humilde de que afinal talvez não sejamos tão brilhantes assim e que as respostas que buscamos talvez estejam mais bem concebidas em algum outro lugar e de uma maneira muito diferente. As antíteses dessa visão de filosofia são tanto o paradoxo inteligente quanto a solução de enigmas da filosofia analítica contemporânea e do obscurantismo muitas vezes cínico de grande parte da filosofia “continental” contemporânea. Filosofia, como Platão viu claramente, é uma prática espiritual.”

” Com demasiada frequência, confundimos o entusiasmo da novidade com amor, pondo assim em perigo a própria idéia da duração do amor ou adotando desesperadamente a meta implausível de mantê-lo novo.”

“Diz-se assim que o verdadeiro conhecimento começa com o reconhecimento do quanto somos realmente ignorantes, o que não é uma desculpa para a resignação mas antes um estímulo para o entusiasmo e o envolvimento com o mundo.”


Auto-Engano – Eduardo gianetti

Agosto 6, 2007

“ A opinião diz quente ou frio, mas a realidade são átomos e espaço vazio”

“Não importa o que seja: pergunte a si mesmo se você conhece algo e você terá sérias razões para começar a duvidar. Antes de tudo cabe indagar, o que é conhecer? Depende é claro do nosso grau de exigência.”

“Com o saber cresce a dúvida.”

“Não é só a beleza que está nos olhos de quem a vê. Todas as sensações de dor e prazer, tudo o que pensamos, sentimos e sonhamos, todas as nossas percepções sensoriais de luz, cor, som, gostos, cheiros, calor e frio, em suma, tudo que é mental não pertence a realidade objetiva e está para ela assim como, para retomar a analogia sugerida por Descartes em Le Monde, o nome das coisas está paras as próprias coisas. O calor não está na chama, a doçura não está no doce. Se alguém roçar levemente uma pluma em sua axila ou sola do pé, você sentirá uma sensação formigante de cócegas. A realidade dirá Descartes, é a ação da pluma sobre a pele e o nervo e toda a cadeia de processos neurológicos mensuráveis que essa ação deflagra. Os efeitos subjetivos dela – nossa experiência íntima dessa fricção inocente – não passam de cócegas mentais.”

“Há um hiato instransponível entre o ver de fora da abordagem científica e o ver de dentro de quem sente, pensa e vê. Por mais que avance a análise objetiva dos processos neurológicos, por mais que se aprimorem as técnicas de observação de ressonância magnética, da eletroencefalograma e da neurovisualização em geral, o conhecimento científico gerado continuará sendo inescapavelmente externo de quem está sendo investigado.”

“ A conclusão básica do argumento sobre o hiato entre a objetividade perseguida pela ciência, de um lado e a subjetividade da experiência humana, de outro, é a tese de que não se pode esperar do progresso do conhecimento científico o que ele não pode oferecer.”

“Nada é o que parece: assim como o homem primitivo viveu num mundo de sonho em relação aos fenômenos da natureza, também nós ainda vivemos num mundo de sonho em relação a nós mesmos e pouco ou nada sabemos sobre as causas verdadeiras de nossas ações na vida prática.”

“Vivemos, de modo indeclinável, imersos em subjetividade. As perguntas fundamentais do auto-conhecimento – quem sou? O que realmente desejo? O que devo fazer da minha vida? Qual o sentido de tudo isso? – estão fora do escopo e do projeto constitutivo da ciência. Imaginar que ela será algum dia capaz de atender a nossa demanda de auto-conhecimento, valores e inteligibilidade é como esperar que um transmissor de fax interprete o sentido de um texto ou que um cego de nascence nos illumine sobre a natureza das cores.”

“ Nossos estados mentais e as configurações flutuantes de ânimo afetam pesadamente a nossa auto-imagem e as crenças que alimentamos sobre nós mesmos. A melhor proteção contra o risco onipresente de auto-engano – supondo é claro, que vale a pena proteger-se dele – é tentar elucidar e entender seus mecanismos internos e a dinâmica de sua ocorrência na formação de crenças ”

“O Pior cego é o que está convicto e seguro de que vê. Não há nada mais fácil do que apontar os erros, preconceitos e fanatismo dos outros enquanto permanecemos cegos e insensíveis aos nossos próprios.”

“Viajando num carro confortável
Por uma Estrada chuvosa do interior
Avistamos ao cair da noite um homem rústico
Solicitando-nos uma condução num gesto humilde
Tínhamos teto e tínhamos espaço e seguimos em frente
E ouvimos a mim dizer num tom de voz árido: “ Não, não podemos lever ninguém conosco”
Tínhamos avançado já boa distância, um dia de viagem talvez
Quando subitamente fiquei chocado com esta voz minha
Com este comportamento meu
E todo este mundo.”

Bertold Brecht

“Se o saber científico nunca é final, o conhecimento que temos de nós mesmos parece condenado a ser eternamente inicial.”

“ A parcialidade no juízo vem de baixo e do fundo. É desagradável, mas é fato biológico: o odor de nosso excremento não nos ofende tanto quanto a dos demais. O mau cheiro é a merda dos outros.”

“ A magia do transporte situacional na arte – e no cinema e no teatro em particular – é que ela nos faz esquecer de nós mesmos e sentir sem estar sentindo. Mas o ponto arquimediano que sustenta a jornada é algo ainda mais singular. A arte tem o dom de não só nos fazer esquecer e sentir, mas de nos fazer esquecer que estamos esquecendo e de nos fazer não sentir que sentimos sem sentir.”

“ Idealizar o que nos falta é uma propensão quase inerente à natureza humana. A mais doce canção de liberdade vem do cárcere. O exílio engrandece a pátria. Os pobres não riem da riqueza dos ricos. Para aqueles que suam pelo pão diário o ócio é um prêmio ardentemente desejado – até que eles o conquistam. A garota de Ipanema, com seu corpo dourado e cheia de graça é sempre a “que vem e que passa” nunca a que fica.”

“ Sonhar e acreditar no sonho são o sal da vida. Não há nada de errado, em princípio, em apostar alto na vida privada ou na vida pública, corer o risco no amor, na política, nos negócios, na arte ou no que for o caso. O comportamento exploratório, ousar o novo, tentar o não tentado, pensar o impensável – é a fonte de toda mudança, de todo avanço e da ambição individual e coletiva de viver melhor . Viver na retranca, sem esperança e sem aventura, não leva ao desastre é verdade, mas não leva a nada. Pior : leva ao nada da resignação amarga que é a morte em vida – o niilismo entediado, inerte e absurdo do “ cadáver adiado que procria.”

“ A tentativa das partes de fazer o que é melhor para si redunda numa situação que é pior para todas elas.”

“ Nenhuma solução é definitiva. Toda vitória é parcial, cada avanço traz novos desafios e qualquer conquista é passível de retrocesso. A prevenção do mal ajuda mas não sacia o desejo humano de encontrar o bem.”


O valor do amanhã – Eduardo gianetti

Agosto 6, 2007

“A liberdade de escolha desligada da capacitação para o seu exercício é uma expressão vazia. É a liberdade de um semi-analfabeto ler Joaquim Nabuco ou de um mendigo famélico para jantar fora. O minímo legal não basta.”

“ Os indivíduos perecem, mas a sociedade a que pertencem – obra aberta que une na mesma trama os valores dos mortos, dos vivos e que estão por vir – segue em frente. O passado condiciona; o presente desafia; o futuro interroga. Existem três formas básicas por meio das quais podemos preencher com o pensamento o vácuo interrogante do porvir. A previsão lida com o provável e responde à pergunta: o que será? A delimitação do campo do possível lida com o exequível e responde à pergunta: o que pode ser? É a expressão da vontade lida com o desejável e responde à pergunta: o que sonhamos ser?”

“Se o sonho desprovido de lógica é frívolo, a lógica desprovida de sonho é deserta”

“As horas mais felizes de nossas vidas são precisamente aquelas em que perdemos a noção da hora. O excesso de juízo carece de juízo.”


No que acredito – Bertrand Russel

Julho 25, 2007

“Eu acredito que quando morrer, irei apodrecer e nada do meu ego sobreviverá. Mas me recuso a tremer de terror diante da minha aniquilação. A felicidade não é menos felicidade porque deve chegar a um fim, nem o pensamento e o amor perdem seu valor porque não são eternos.”

“ Não pretendo provar que Deus não existe. Tampouco posso provar que o Diabo seja uma ficção. É possível que exista o Deus cristão, assim como é possível que existam os deuses do Olimpo, do Egito antigo ou da Babilônia. Mas nenhuma dessas hipóteses é mais provável que a outra: residem fora da região do conhecimento provável e, portanto, não há razão para considerar qualquer uma delas.”

“ Se não temessemos a morte, creio que a idéia de imortalidade jamais houvesse surgido. O medo é a base do dogma religioso, assim como de muitas outras coisas na vida humana. O medo dos seres humanos, individual ou coletivamente, domina muito de nossa vida social, mas é o medo da natureza que dá origem à religião.”

“ A vida virtuosa é aquela inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento.”

“Tanto o conhecimento como o amor são indefinidamente extensíveis; logo, por melhor que possa ser uma vida, é sempre possível imaginar uma vida melhor.”

“Penso que em todas as descrições de uma vida plena nesse planeta devemos assumir um certo princípio fundamental de vitalidade e instinto animal; sem ele, a existência se torna insípida e desinteressante. A civilização deveria ser algo que se somasse a isso, não o substituísse. Nesse sentido, o santo ascético e o sábio desinteressado não se constituem em seres humanos completos. É possível que um pequeno número desses homens enriqueça uma comunidade, mas um mundo formado por eles morreria de tédio.”

“ O ponto importante é que, a despeito de tudo o que distingue uma vida boa da uma vida má, o mundo é uma unidade, e o homem finge viver de maneira independente não passa de um parasita consciente ou inconsciente.”

“ Para viver uma vida plena em seu mais amplo sentido, um homem deve contar com uma boa educação, amigos, amor, filhos (se os desejar), uma renda suficiente para manter-se a salvo da pobreza e de graves apreensões, uma boa saúde e um trabalho que não lhe seja desinteressante.”

“ A quantidade e o tipo de trabalho que a maioria das pessoas tem de exercer atualmente constitui em um grave mal: particularmente nociva é a sujeição à rotina ao longo de toda uma experência. A vida não deveria ser tão rigorosamente controlada nem tão metódica. Nossos impulsos, quando não fossem efetivamente destrutivos ou danosos aos outros, deveriam, se possível, ter curso livre; deveria haver espaço para a aventura. Deveríamos respeitar a natureza humana, na medida em que nossos impulsos e desejos constituem o material do qual deve ser feita a nossa felicidade.”