Cultura um conceito antropológico – Roque de Barros Laia

Outubro 8, 2007

” Cada cultura segue os seus próprios caminhos em função dos diferentes eventos históricos que enfrentou.”

” O Homem é o resultado do meio cultiral em que foi socializado. Ele é um herdeiro de um longo processo acumulativo, que reflete o conhecimento e a experiência adquirida pelas numerosas gerações que o antecederam. A manipulação adequada e criativa desse patrimônio cultural permite as inovações e invenções.”

“Se tivesse nascido no Congo ao invés da Saxônia, não poderia Bach ter composto nem mesmo um fragmento de coral ou sonata, se bem que possamos confiar igualmente em que ele teria eclipsado os seus compatriotas em alguma espécie de música.”

” Os homens ao contrário das formigas, têm a capacidade de questionar seus próprios hábitos e modificá-los.”
” O sábio nunca dialoga com a natureza pura, senão com um determinado estado de relação entre natureza e cultura, definida por um período na história em que vive, a civilização que é a sua e os meios materiais de que dispõe.”

” A nossa herança cultural, desenvolvida através de inúmeras gerações, sempre nos condicionou a reagir depreciativamente em relação ao comportamento daqueles que agem fora dos padrões aceitos pela maioria da comunidade.”

” É comum assim a crença do povo eleito, predestinado por seres sobrenaturais para ser superior aos demais. Tais crenças contêm o germe do racismo, da intolerância, e, frequentemente, são utilizadas para justificar a violência praticada contra os outros.”

“Em outras palavras, não basta a natureza criar indivíduos altamente inteligentes, isto ela o faz com frequência, mas é necessário que coloque ao alcance dos indivíduos o material que lhes permita exercer a sua criatividade de uma maneira revolucionária. Santos Dumont(1873-1932) não teria sido o inventor do avião se não tivesse abandonado a sua pachorrente Palmira, no final do século XIX, e se transferido em 1892 para Paris. Ali teve acesso a todo o conhecimento acumulado pela civilização ocidental. Em Palmira, o seu cérebro privilegiado poderia talvez realizar outras invenções, como por exemplo um eixo mais aperfeiçoado para carros de bois, mas jamais teria tido a oportunidade de proporcionar a humanidade a capacidade da locomoção aérea.”

Segundo Krober uma ampliação do conceito de cultura:

A cultura, mais do que a herança genética, determina o comportamento do homem e justifica suas realizações.

O homem age de acordo com seus padrões culturais. Os seus instintos foram parcialmente anulados pelo longo processo evolutivo por que passou.

A cultura é o meio de adaptação aos diferentes ambientes ecológicos. Em vez de modificar para isto o seu aparato biológico, o homem modifica seu equipamento superorgâncio.

Adquirindo cultura, o homem passou a depender muito mais do aprendizado do que a agir através de atitudes genéticamente determinadas.

A cultura é um processo acumulativo, resultante de toda a experiência histórica das gerações anteriores. Este processo limita ou estimula ação criativa do indivíduo.

Os gênios são indivíduos altamente inteligentes que têm a oportunidade de utilizar o conhecimento existente ao seu dispor, construído pelos participantes vivos e mortos de seu sistema cultural, e criar um novo objeto ou uma nova técnica. Nesta classificação podem ser incluídos os indivíduos que fizeram as primeiras invenções, tais como o primeiro homem que produziu o fogo através do atrito da madeira seca; ou o primeiro homem que fabricou a primeira máquina capaz de ampliar a força muscular, o arco e flecha etc. São eles gênios da mesma grandeza de Santos Dumont e Einstein. Sem as suas primeiras invenções ou descobertas, hoje consideradas modestas, não teriam ocorrido as demais. E pior do que isto, talvez nem mesmo a espécie humana teria chegado ao que é hoje.

” Assim sendo, a comunicação é um processo cultural. Mais explicitamente, a linguagem humana é um produto da cultura, mas não existiria cultura se o homem não tivesse a possibilidade de desenvolver um sistema articulado de comunicação oral.”

“Cada um de nós sabe o que fazer em determinadas situações, mas nem todos sabem prever o que fariam nessas situações. Estudar a cultura é portanto estudar um código de símbolos partilhados pelos membros dessa cultura.”

” O estudo da cultura nunca terminará, pois uma compreensão exata do conceito de cultura significa a compreensão da própria natureza humana, tema perene de incansável reflexão.”


Espiritualidade para céticos – Robert C. Salomon – parte 1

Outubro 1, 2007

“No mínimo, a espiritualidade é a percepção sutil e não facilmente especificável que envolve praticamente toda e qualquer coisa que transcenda ao nosso mesquinho interesse pessoal. Há, portanto, espiritualidade na natureza, na arte, nos laços de amor e companheirismo que mantém uma comunidade unida, na reverência à vida (e não só a vida humana) que é a chave para grande número de filososfias, bem como religiões. Isso não significa que espiritualidade é uma forma de abnegação ou negação do ego. A espiritualidade, quero demonstrar , é uma forma expandida do self, o que, enfaticamente, não significa dizer que é uma forma expandida de egoísmo. Ela é, antes como muitos budistas afirmam a muito e Hegel afirmou mais recentemente, a apaixonada sensação de autoconsciência em que a própria distinção entre abnegação e egoísmo desaparece.”

“Nas palavras famosas de Kant: “A ciência é a organização do conhecimento, mas a sabedoria é a organização da vida.”

“O que Kant não percebeu, pelo menos em sua filosofia, foi o quanto a religião é antes de mais nada um fenômeno social, não uma questão de crença.”

“Uma analogia sobre a definição de espiritualidade seria o JAZZ. O jazz é sintético e social, reunindo muitas vozes e pessoas. É eclético, tomando emprestado elementos de tudo e de toda parte, de cantigas infantis e canções folclóricas à música aborígene australiana. É pluralista. Não há forma correta de jazz. É improvisador, espontâneo, todas aquelas vozes respondendo umas às outras (e à audiência) tomando por base o que veio antes mas nunca preso a ele. É complexo, viceja no contraponto e é ricamente aleatório e imprevisível.”

“Por fim, a filosofia se torna espiritualidade quando aprende como ouvir (uma lição difícil para aqueles de nós que ganhamos a vida e reputações com palestras e monólogos). É formular e tentar responder por nós mesmos as eternas questões filosóficas, sobre o sentido da vida, a inevitabilidade da morte e o lugar de todos e de cada um de nós num mundo cada vez mais (talvez tragicamente) humano. É também aproximar-se da humanidade com o sentimento humilde de que afinal talvez não sejamos tão brilhantes assim e que as respostas que buscamos talvez estejam mais bem concebidas em algum outro lugar e de uma maneira muito diferente. As antíteses dessa visão de filosofia são tanto o paradoxo inteligente quanto a solução de enigmas da filosofia analítica contemporânea e do obscurantismo muitas vezes cínico de grande parte da filosofia “continental” contemporânea. Filosofia, como Platão viu claramente, é uma prática espiritual.”

” Com demasiada frequência, confundimos o entusiasmo da novidade com amor, pondo assim em perigo a própria idéia da duração do amor ou adotando desesperadamente a meta implausível de mantê-lo novo.”

“Diz-se assim que o verdadeiro conhecimento começa com o reconhecimento do quanto somos realmente ignorantes, o que não é uma desculpa para a resignação mas antes um estímulo para o entusiasmo e o envolvimento com o mundo.”